A realidade é mais doce que o sonho...

A realidade é mais doce que o sonho... (Reality is sweeter than dream...)


sábado, 22 de outubro de 2011

"Minhas Ferias"

Enquanto os brasileiros (os outros; eu, "Sarinha", jamais!) continuarem a aceitar cegamente esses precos absurdos de restaurantes, shoppings, ingressos para shows, supermercados e servicos inflacionados a cada mes, vai se mantendo atual o texto abaixo, que escrevi em janeiro de 2010.
 

SUBLIME BUENOS AIRES
 
Dez dias na capital, incluindo o Reveillon, em hospedagem fora do padrão: em casa de amigos brasileiros que estão lá a trabalho por 3 anos, morando no famoso bairro da Recoleta. Hospedagem assim só tem uma definição: “priceless” (sem preço) – obrigada mais uma vez, amigos!
Essa é a melhor maneira de conhecer outros lugares – por dentro, não com o olhar distanciado de turista. Vivendo o dia-a-dia, fazendo supermercado, levando as crianças à pracinha mais próxima, pondo em teste o portunhol com a empregada; tendo tempo de observar as gentes na rua em detalhes, como andam, o que fazem, sem caricaturas para resumí-las.
Correndo os olhos pelos livros da estante do apartamento, me deparei com o romance “Budapeste”. Sempre me perguntei por que diabos Chico Buarque foi escrever um romance sobre Budapeste, a terra do meu pai, famosa para mim, mas não tanto em comparação com Paris, Nova York, etc. Leitura mais apropriada não poderia ser – justo a mesma história de conhecer um lugar estranho olhando de dentro.
E em meio aos maravilhosos sabores portenhos dos iogurtes, dos espumantes pela metade do preço do que no Brasil, dos bifes de chorizo que se cortam suculentos com faca afiada sem serra, dos sorvetes de dulce de leche, em meio as facilidades da rotina da casa, em meio à harmonia visual de um bairro padronizado, em meio a horas passadas ao som de tangos ao piano no café da livraria do Ateneo, instalado em pleno palco de um teatro de ópera desativado, veio a constatação:
Que qualidade de vida! Agora consigo traduzir as comparações de Buenos Aires com Paris, com a Europa: muito menos o fato de que certas ruas e prédios nos remetem ao ar da capital francesa, ou de Budapeste, ou da Holanda, mas muito, muito mais pela sociedade organizada em cima de tradição e de parâmetros de primeiro mundo, tornando a vida muito mais prazerosa que esta que nos atropela no Brasil. Nossos irmãos argentinos podem até estar em crise guardando dinheiro no colchão, mas depois que uma sociedade consegue se estruturar, onde por exemplo o convênio médico cobre todas as despesas da criança com necessidades especiais, ou onde se pode encontrar sessão de restaurantes kosher na praça de alimentação do shopping, é possível manter o charme em meio â tormenta (não digo “manter a pose”, pois pose é com os peruanos, que não abaixam a cabeça por serem os verdadeiros herdeiros dos incas – a cozinheira era peruana e nos preparou um ceviche inesquecível).
Assim foi que nós e as crianças voltamos impregnados dos Bons Ares de lá, o principal mito caído por terra - a constatação de que a famosa rivalidade é só no futebol (ou inventada pelos norte-americanos naquela prática de “Dividir para Governar”); que os argentinos na verdade adoram os brasileiros e tudo que remete ao Brasil. E voltamos com nossos olhos bem abertos para o que gerou uma grande indignação e questionamento: aqui na terrinha estamos pagando muito alto por muito menos – quem são mesmo os poucos que estão lucrando com o superfaturamento geral dos preços numa sociedade em que tudo ainda está por fazer?

Um comentário:

  1. Parabéns, Beths!!!! Isso mesmo! Concordo com tudo o que escreveu e o mesmo sentimento nutro por Buenos Aires e o mesma indignação nutro pelos preços absurdos praticados em Brasília, a verdadeira ilha da fantasia (ainda). Quando é que os brasileiros vão entender que vida boa é vida na rua, quando a gente pode desfrutar do espaço público sem medo de ladrão, sem falta de educação e sem pagar pela grife?

    Beijão,

    Luciana (Lulupisces.blogspot.com)

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